→ Concepção e performance Maikon K

→ Colaboradores:
Dramaturgia: Michelle Moura
Cenário: Fernando Marés
Figurino: Faetusa Tezelli
Som: Beto Kloster
Luz: Fábia Regina
Fotografia: Lauro Borges
Produção: Expressão Produções Artísticas
Equipe cenotécnica: Fabiano Hoffmann e Ricardo Teixeira
Design gráfico: Adriana Alegria
Assessoria de imprensa: Victor Hugo Gabardo
Vídeo: Ulisses Candal Sato

→ Duração 
1 hora

→ Incentivo
Celepar

Dança privê num portal interdimensional.
Holograma de cubo e olhos.
Bunker erótico.
Tudo aquilo que não se pode tocar.

Um terrário é um recipiente que recria as condições ambientais para um ser viver, seja animal ou planta. Uma de suas paredes é de material transparente, permitindo observar o comportamento dos seres vivos em seu interior. Neste trabalho, Maikon K parte da relação do corpo com espelhos, luz e areia. Um corpo superexposto, multiplicado em fragmentos e estilhaços. Um corpo que se mostra e está confinado. Terrário é sobre observar e ser observado, sem no entanto se deixar tocar. É ver sua própria imagem e não se reconhecer.

O cubo negro coloca o público no papel de voyeur. Olha-se através e para dentro, captando pedaços, feixes, sons. Num mundo de webcams e fotos instantâneas, capturamos, selecionamos e oferecemos nossa imagem a uma multidão de olhos. Imagem que se alastra sem controle, viral. Podemos nos comunicar de dentro de nosso quarto, carro, banheiro, prisão. E o mundo vem até nós, fibra ótica, onda de satélite, sorvido pelas retinas vidradas. Consumimos um mundo-imagem, e somos por ele consumidos.

A performance se estrutura em duas partes.
Prólogo. O performer está em pé. À sua frente, uma superfície de espelhos quebrados. Ao fundo, um cubo negro de 3 metros de altura. Ele dança sobre os espelhos: ilusionismo erótico, manipulação biológica. Num segundo momento, ele entra no cubo. Essa caixa preta é forrada com areia e espelhos cobrem as paredes. Os sons no interior do cubo são microfonados e saem através de caixas do lado de fora. O público assiste através de pequenas janelas. O jogo de espelhos permite ao espectador criar diversas perspectivas. O público observa e também é observado, contemplando o aparecimento de sucessivos estados e imagens.

Estreou em 1 de dezembro de 2015, no Estudio 455, em Curitiba (PR).

TRAILER: https://vimeo.com/261623516

Texto sobre Terrário, do artista Ricardo Nolasco (diretor, ator e performer do coletivo Selvática) - publicado em 12/12/2015

Reflexos de Maikon K

I.  Em Terrário (dança privê num portal interdimensional) metamorfose e reflexo apresentam-se como experiência e não metáfora, o espelho dobra a realidade tornando esta exercício de ficção. Carne e imagem manipuladas não como ilusão, mas como possibilidade. Assim Narciso dança e manipula a sua imagem em vez de se apaixonar por ela. Um corpo só, desobediente e andrógino que dobra pênis, triplica vagina, nega o sexo e fragmenta-se em dezena de estilhaços não deseja enxergar a própria perfeição. Prefere o erro, o desvio e o renascimento. Osíris retalhado no Nilo.

Luz, corpo e materialidade se transformam como em um jogo de encaixe onde a biologia é manipulada. O desdobramento de um instante que torna-se infinito na espacialidade. Maikon K apresenta a efemeridade da performance, da metamorfose, do reflexo, de seu corpo em putrefação e seu gozo como aquilo que pode oferecer ao mundo. A efemeridade multifacetada é o seu produto e assim a apresenta aos patrocinadores e incentivadores. O performer dá a bunda ao momento político que o país vive: apresenta subjetividade e ironia como armas místicas.

II. "- Limpem isso aqui! - disse o inspetor, e enterraram o artista da fome junto com a palha. Mas na jaula puseram uma jovem pantera. Era um alívio sensível até para o sentido mais embotado ver aquela fera dando voltas na jaula tanto tempo vazia. Nada lhe faltava. O alimento de que gostava, os vigilantes traziam sem pensar muito; nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das suas mandíbulas. E a alegria de viver brotava da sua garganta com tamanha intensidade que para os espectadores não era fácil suportá-la. Mas eles se dominavam, apinhavam-se em torno da jaula e não queriam de modo algum sair dali. "

(Franz Kafka. Um Artista da Fome)

O ambiente que observamos é pequeno e redimensionado por espelhos e iluminação. Dessa vez colocando o público do lado de fora da bolha, para que esse observe por pequenas janelas de vidro na altura dos olhos, Maikon escancara a relação entre obra de arte e expectação. Mais do que nunca se estabelece o pacto e firma-se a responsabilidade conjunta: olhe para um corpo exposto nesse sacrifício, não se exima dessa hipnose e rito, todo processo mental é de autoconhecimento. Vidro, espelho, areia, corpo e pó são elementos que compõe um ao outro, o corpo do performer é uma tábua alquímica que transforma todos eles. K retorna para um tom presente em trabalhos como Guilhotina, novamente produz uma crítica ácida a condição do artista.

Todo o dinheiro poderia estar sendo usado para medidas concretas como a extinção da fome ou sendo desviado diretamente para os bolsos e cuecas da corrupção, mas está ali denunciando as próprias estruturas da espetacularidade.

O espetáculo suga e mata o artista.

O espetáculo é tudo o que podemos oferecer.

Dor e simulacro: Nada fere ao performer nem ao público, tudo é preparado para o espetáculo.

Depois do coito telepático uma pequena morte. Contemple uma criatura viva e bonita feita para servir ao instante, contemple um rito sacrificial de um artista rei. Temporário e total.

Texto por Francisco Mallmann - 15/12/2015

Em resposta à precariedade, o artista instaura um espaço em que a profusão de sua imagem atinge a radicalidade – de quantas formas é possível ver o corpo do artista, absolutamente desnudo, em completa exposição?

O crítico de arte Antonio Gonçalves Filho, em um texto publicado na Folha de S. Paulo, no dia 1.º de janeiro de 1993, intitulado “Pintor faz ritual para mortos do Carandiru”, em que discorre sobre um trabalho de Nuno Ramos, diz:

“Com o pudor de uma senhora elegante que não pode manchar seu vestido com sangue de natimortos sociais, contemporâneos têm evitado a contaminação da chamada arte sociológica.”

[...]

O meu interesse em ilustrar esse acontecimento e o registro crítico que o sucedeu, é relacioná-lo, de algum modo, com Terrário – dança privê num portal interdimensional, de Maikon K – um trabalho em que a profundidade de uma pesquisa corporal/material está fundida a uma certa “sociologia” que só não “mancha o vestido” porque o corpo está nu e é ele quem sangra.

A última vez que escrevi sobre o trabalho de Maikon K., sobre Corpo Ancestral (leia aqui), eu o fiz em uma perspectiva antropológica, me referindo a assuntos tais como a ancestralidade – ainda me parece muito producente pensar aquilo que o artista apresenta estabelecendo formas de ver que passem por uma leitura antropológica, porque as imagens que ele cria parecem, de algum modo, sempre fundar um universo com uma cosmologia desconhecida que vai sendo desvendada a medida que se verticaliza. Parece haver sempre movimentos que não são somente de inversão das temáticas, tais como o gênero, mas a realização de trajetos que resultam na recriação da realidade com a proposição de novos fluxos. Está em Terrário, mais uma vez, esse caráter inventivo, que faz com que tudo pareça incrivelmente “novo” e “desconhecido”, por assim dizer.

É com uma vertente que se aproxima a minha introdução, no entanto, que eu gostaria de evocar o último trabalho de Maikon K, que articula e denuncia os modos de produção da arte, juntamente com a abertura de outras formas de ser/ver, intimamente atreladas à pesquisa corporal e as materialidade que compõem esse ambiente de experimentação.

É necessário que o artista se explique. É necessário que o artista agradeça à “empresa patrocinadora” e às instituições estatais. É necessário que fique claro onde está o dinheiro – é necessário que fique claro que isso tudo é sobre dinheiro. O que faz Maikon K. é revelar o absurdo existente no modo de se conceber a arte, em um sistema em que os modos de operação se restringem a institucionalidades que precisam ser atestadas, antes de tudo, quantitativamente.

É esse o caráter “sociológico” que aqui se faz presente – a denúncia de um contexto artístico em que, resumida e simploriamente, o dinheiro impera. O artista se refere a um quadro que, mesmo hipotético, é capaz de retratar fielmente o cenário artístico local. Cabe na declaração a crítica aos editais, a saga de captação de recursos, a dependência constrangedora dos artistas em relação às instituições públicas e privadas.

Em resposta à precariedade, o artista instaura um espaço em que a profusão de sua imagem atinge a radicalidade – de quantas formas é possível ver o corpo, absolutamente desnudo do artista em completa exposição? Os olhos do público encaixados nas frestas de uma grande caixa preta: no interior, o artista experimenta-se em contato com a areia e o objeto cortante que é o espelho. Os espelhos criam um horizonte que é feito de corpo e vai até onde alcança a vista. Ali está a intimidade, objeto do voyeurismo: tão perto e, por isso, tão distante. É impossível o toque. Ainda assim, o convite: “goze comigo” –  as câmeras, em breve, serão ligadas.

Terrário
Peep show xamânico